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	<title>AMO &#187; FOLHA</title>
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		<title>INSTINTO MORAL</title>
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		<pubDate>Sat, 24 Mar 2012 19:46:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diego Belo</dc:creator>
				<category><![CDATA[CONHECIMENTO]]></category>
		<category><![CDATA[FOLHA]]></category>
		<category><![CDATA[PRECONCEITO]]></category>

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		<description><![CDATA[É, realmente, muito difícil lidar com nossos preconceitos. Hélio Schwartsman, na Folha. Ragnarök, a danação de Thor SÃO PAULO &#8211; Por que todos amam odiar Thor Batista? A resposta curta é: porque ele é podre de rico. Mais, desempenha com competência o papel de garoto mimado, que dirige carros estupidamente caros, enquanto vai distraidamente acumulando [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>É, realmente, muito difícil lidar com nossos preconceitos. <a href="http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/32843-ragnarok-a-danacao-de-thor.shtml" target="_blank">Hélio Schwartsman</a>, na Folha.</p>
<p><strong>Ragnarök, a danação de Thor</strong></p>
<p>SÃO PAULO &#8211; Por que todos amam odiar Thor Batista? A resposta curta é: porque ele é podre de rico. Mais, desempenha com competência o papel de garoto mimado, que dirige carros estupidamente caros, enquanto vai distraidamente acumulando pontos em sua carteira de habilitação.</p>
<p>Já a explicação longa está enterrada bem no fundo de nossos cérebros pré-históricos, forjados numa época em que cada membro do bando era, ao mesmo tempo, um aliado indispensável e um concorrente impiedoso. Para navegar em meio a essa e outras ambiguidades sociais, acabamos desenvolvendo nosso senso moral.</p>
<p>Jonathan Haidt sugere que ele pode ser decomposto em seis sentimentos básicos: proteção, justiça, lealdade, autoridade, pureza e liberdade, que constituiriam uma espécie de tabela periódica do instinto moral. O mapa ético de cada indivíduo seria uma combinação de diferentes proporções desses &#8220;ingredientes&#8221;.</p>
<p>A revolta para com Thor se deve ao fato de que sua situação privilegiada (e que não é atenuada por &#8220;boas obras&#8221; como fazer filantropia) ofende nosso sentimento de justiça. O problema é que, como temos dificuldade para defini-la, recorremos a aproximações, às vezes esdrúxulas, como identificar o fraco a bom e o forte a ruim. Nietzsche explorou bem o que chamou de &#8220;moral do escravo&#8221;.</p>
<p>Quantos de nós já não nos pegamos torcendo pela débil seleção de Camarões contra a poderosa Alemanha? Basicamente, temos uma vontade irrefreável de &#8220;equilibrar o jogo&#8221;.</p>
<p>Não é preciso quebrar a cabeça para vislumbrar a utilidade do mecanismo. No passado darwiniano, quando ajudávamos o fraco a enfrentar um forte, livrávamo-nos de um rival ou, ao menos, contribuíamos para enfraquecê-lo. Foi nesse espírito que os gregos criaram o instituto do ostracismo, que agora consideramos cruel.</p>
<p>A questão é que, no mundo não pré-histórico de hoje, não deveríamos julgar pessoas com base em sentimentos, mas apenas em evidências. </p>
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		<title>LA FELICITÀ È UN GELATO</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Mar 2012 03:59:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diego Belo</dc:creator>
				<category><![CDATA[CONSUMO]]></category>
		<category><![CDATA[FOLHA]]></category>
		<category><![CDATA[DINHEIRO]]></category>
		<category><![CDATA[FELICIDADE]]></category>

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		<description><![CDATA[O texto do Gustavo Cerbasi começa parecendo auto-ajuda, mas avança na discussão. Questões importantes, que inclusive nos deparamos no cotidiano do mundo do consumo e comunicação, são colocadas em evidência. Como comprar felicidade Felicidade é um estado de espírito, e não uma reação momentânea a um acontecimento O consumo contribui para sua felicidade, pois é [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>O texto do <a href="http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/30719-como-comprar-felicidade.shtml" target="_blank">Gustavo Cerbasi</a> começa parecendo auto-ajuda, mas avança na discussão. Questões importantes, que inclusive nos deparamos no cotidiano do mundo do consumo e comunicação, são colocadas em evidência.</p>
<p><strong>Como comprar felicidade</strong></p>
<p><em>Felicidade é um estado de espírito, e não uma reação momentânea a um acontecimento</em></p>
<p>O consumo contribui para sua felicidade, pois é uma forma de obter satisfação pessoal. Pense na felicidade de tomar um café para aliviar a sensação de sono, de ler um livro para se informar ou se distrair, ou de ir à manicure para receber cuidados. E que tal a felicidade de tirar férias? De trocar de carro? De comprar uma TV nova?</p>
<p>Obviamente, a felicidade obtida por meio do consumo não é tão intensa e duradoura quanto a que sentimos ao conquistar grandes objetivos, como passar na faculdade, casar, ter filhos ou quitar a casa própria. Mas, sendo esses grandes objetivos pouco numerosos ao longo de nosso viver, não é exagero apontar o consumo como nossa fonte mais frequente de felicidade.</p>
<p>Porém, antes de sair gastando alucinadamente em busca de prazer, é importante perceber que não é exatamente o ato do consumo que nos faz felizes. Felicidade é um estado de espírito e não uma reação momentânea a um acontecimento. O que realmente contribui para nosso bem-estar é a maneira com que aproveitamos os acontecimentos em nossa vida.</p>
<p>Em outras palavras, não é o nascimento do filho que nos faz felizes, mas sim a realização de poder criar um descendente. Não é a compra do carro, mas sim a possibilidade de dirigir com mais eficiência, conforto, design e admiração dos amigos. Não é a aquisição do cosmético, mas a sensação de rejuvenescimento. Tão importante quanto adquirir bens ou serviços é poder aproveitá-los da melhor maneira possível. Isso faz com que sejamos recompensados por nossas escolhas.</p>
<p>Entretanto, a falta de planejamento leva muitas pessoas ao consumo sem que tenham real condição de aproveitar aquilo que compram. Quanto mais impulsivo for o consumidor, mais ele terá roupas não usadas no armário, eletrodomésticos pouco aproveitados, férias insatisfatórias, livros mofando sem serem lidos e outros bens mal-escolhidos.</p>
<p>Sem aproveitar suas compras, sua única lembrança de felicidade estará associada ao ato da compra em si e por isso ele tenderá a comprar mais. A impulsividade tende a se transformar em compulsão.</p>
<p>É bastante comum também a situação em que a pessoa, por mais que tenha um padrão de consumo admirável, não se sinta feliz com suas escolhas. Normalmente, isso acontece quando o consumo gera mais frustrações que recompensas.</p>
<p>Um exemplo típico de consumo frustrante é quando alguém não planeja férias com antecedência, mas, ao se ver diante da oportunidade ou do convite para aproveitar férias por vencer, decide comprar o primeiro pacote de viagens que vê pela frente. Independentemente de ser um destino interessante ou não, a pessoa terá de parcelar sua compra, já que não se planejou para isso.</p>
<p>As férias não tiveram espaço no orçamento dos meses anteriores à viagem. Mas, para honrar as prestações assumidas para os meses seguintes, a pessoa terá de eliminar hábitos de sua rotina. Por mais que a viagem tenha sido interessante, cada prestação a pagar será um motivo de arrependimento.</p>
<p>Além disso, não haverá verba para sair com amigos, contar as histórias e as novidades, mostrar fotos. Sem esse convívio, não existirá o desfrute duradouro daquele consumo, que faria a pessoa mais feliz. Mais provável é que o arrependimento de cada prestação a pagar condicione a pessoa, inconscientemente, a não ter pressa para tirar férias novamente.</p>
<p>Seria bem diferente se, meses antes das férias, a pessoa estivesse planejando e poupando. O objetivo definido seria argumento para deixar de lado excessos de consumo.</p>
<p>Poupar não seria um sacrifício, mas sim uma gincana motivada pela expectativa. A realização do sonho seria o fim do processo, não o começo. Ao voltar das férias, com as contas quitadas, além de descansada a pessoa passaria a contar com recursos para socializar e curtir o momento -afinal, não estaria mais poupando. Resultado: felicidade continuada.</p>
<p>Se você quer ser mais feliz, planeje e poupe antes de consumir. Ambicione, conquiste e aprenda a degustar por um bom tempo suas conquistas, no lugar de cultivar o pobre vício em consumo.</p>
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		<title>MICRÓBIOS ME MORDAM!</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Mar 2012 03:48:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diego Belo</dc:creator>
				<category><![CDATA[ARTIGOS]]></category>
		<category><![CDATA[CALLIGARIS]]></category>
		<category><![CDATA[FOLHA]]></category>
		<category><![CDATA[MICRÓBIOS]]></category>

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		<description><![CDATA[Um pouco filme de ficção científica a coluna do Calligaris, de 15/3/2012, não? O importante é perceber como tem cientista pra tudo no mundo. Micróbios dominadores Os micróbios que vivem no nosso corpo podem influenciar nosso comportamento Em 2010, nos &#8220;Annals of Epidemiology&#8221;, li uma pesquisa que achei inquietante: ela confirmava uma dúvida que me [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Um pouco filme de ficção científica a coluna do <a href="http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/31298-microbios-dominadores.shtml" target="_blank">Calligaris</a>, de 15/3/2012, não? O importante é perceber como tem cientista pra tudo no mundo.</p>
<p><strong>Micróbios dominadores</strong></p>
<p><em>Os micróbios que vivem no nosso corpo podem influenciar nosso comportamento</em></p>
<p>Em 2010, nos <a href="http://migre.me/8ftEa" target="_blank">&#8220;Annals of Epidemiology&#8221;</a>, li uma pesquisa que achei inquietante: ela confirmava uma dúvida que me assombrara por um bom tempo, a partir dos meus oito anos.</p>
<p>Com essa idade, aprendi que, mesmo sem estarmos doentes, somos habitados por bactérias, vírus, parasitas e fungos, que prosperam dentro de nosso organismo.</p>
<p>E me interroguei: esses micróbios, além de fazerem (eventualmente) com que a gente adoeça, não estariam dentro de nós como pilotos numa imensa espaçonave? Apesar de acreditarmos em nossa autonomia, quem sabe eles não estejam, de fato, no volante de nossa vida?</p>
<p>Justamente, os autores da pesquisa, Chris Reiber, J. Moore e outros, queriam saber se um vírus pode mandar em nós -não só alterar nosso humor, mas realmente influenciar nosso comportamento.</p>
<p>Eles descobriram que os infectados pelo vírus da gripe, durante o período da incubação (em que são contagiosos, mas não apresentam sintomas), tornam-se especialmente sociáveis. Em outras palavras, os infectados parecem agir no interesse do vírus, que é o de contagiar o máximo possível.</p>
<p>Claro, não é que os micróbios se sirvam da gente para levar a cabo um &#8220;plano&#8221; maquiavélico. Mas se entende, com Darwin, que um vírus que nos torne sociáveis durante a incubação só pode se dar bem na seleção natural, pois ele se espalhará facilmente. Ou seja, os micróbios mais eficientes seriam os que conseguem nos usar em seu interesse próprio, os que nos transformam em seus súcubos.</p>
<p>O que sobraria de nossa &#8220;autonomia&#8221; se todos os micróbios enquistados no nosso organismo influenciassem (silenciosamente) nossos pensamento e comportamento?</p>
<p>Kathleen McAuliffe, na <a href="http://migre.me/8fwvb" target="_blank">&#8220;The Atlantic&#8221;</a> de março, conta a história de Jaroslav Flegr, um cientista que, há 20 anos, pretende que um parasita, o Toxoplasma gondii, manipule e transforme os que ele infecta.</p>
<p>O hospedeiro definitivo do Toxoplasma gondii é o gato, em cujo corpo o parasita se reproduz sexualmente. Seu hospedeiro intermediário típico é o rato, que se infecta ao ingerir o Toxoplasma (direta ou indiretamente) nas fezes do gato e, logo, ao ser comido por um felino, leva o parasita de volta para seu hospedeiro definitivo.</p>
<p>Agora, o Toxoplasma pode infectar qualquer mamífero, enquistando-se no tecido muscular e no cérebro. Nos humanos, ele é presente em 55% dos franceses (comedores de carne crua -claro, de boi infectado) e em 10 a 20% dos norte-americanos. Em tese, pouco importa, pois o Toxoplasma só seria perigoso na gravidez, quando produz malformações fetais. Mas será que esse é seu único efeito?</p>
<p>Há mais de uma década, descobriu-se que o Toxoplasma altera o comportamento dos ratos infectados, tornando-os atrevidos e fãs do cheiro da urina de gato (de que normalmente eles fugiriam). Ou seja, o Toxoplasma transforma o rato numa presa mais fácil para o gato, no estômago do qual o parasita quer acabar sua viagem.</p>
<p>Outra surpresa. Nos ratos (e só neles), o parasita pode ser transmitido por via sexual; ora, verifica-se que os ratos machos infectados são inexplicavelmente mais desejáveis aos olhos das fêmeas.</p>
<p>Um parasita capaz de influenciar o cérebro do rato, seu hospedeiro intermediário preferido, não teria efeito algum quando se instala no nosso cérebro?</p>
<p>Para começar, o Toxoplasma parece produzir em nós alguns efeitos parecidos com os que ele produz nos ratos: por exemplo, muitos humanos infectados passam a achar agradável o cheiro da urina de gato. Nada dramático: a gente é raramente comido por gatos (mas resta a pergunta: se você adora gatos, é porque gosta mesmo ou porque carrega o Toxoplasma gondii no seu cérebro?).</p>
<p>Há mais: a presença do <a href="http://migre.me/8fxYX" target="_blank">Toxoplasma gondii</a> no cérebro alavanca a produção de dopamina, um neurotransmissor cujo excesso é um dos fatores no conjunto de causas possíveis da esquizofrenia.</p>
<p>Enfim, o fato é que estamos começando a descobrir que os micróbios aparentemente inócuos que vivem no nosso corpo podem influenciar nosso comportamento.</p>
<p>Não acredito que sejamos os títeres de germes, parasitas, fungos e vírus, mas, certamente, o ambiente que nos constitui e determina não é só o das interações com nossos semelhantes. É também o de interações misteriosas com seres que sequer enxergamos. Inquietante, hein?</p>
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		<title>LEI DE GRESHAM</title>
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		<pubDate>Fri, 10 Feb 2012 19:53:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diego Belo</dc:creator>
				<category><![CDATA[ARTIGOS]]></category>
		<category><![CDATA[CONHECIMENTO]]></category>
		<category><![CDATA[FOLHA]]></category>
		<category><![CDATA[IDEIAS]]></category>
		<category><![CDATA[INFORMAÇÃO]]></category>

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		<description><![CDATA[Reflexão importante e interessante. Ver, mas pensar. Saiu na Folha, em outubro de 2011. A elusiva grande ideia NEAL GABLER OPINIÃO As ideias não são mais o que eram antes. Antigamente, elas incendiavam debates, estimulavam outros pensamentos, incitavam revoluções e alteravam a maneira como vemos e pensamos o mundo. Elas podiam penetrar na cultura geral [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Reflexão importante e interessante.<br />
Ver, mas pensar.</p>
<p>Saiu na <a href="http://www1.folha.uol.com.br/fsp/newyorktimes/ny2208201101.htm" target="_blank">Folha</a>, em outubro de 2011.</p>
<p><strong>A elusiva grande ideia</strong></p>
<p>NEAL GABLER<br />
<em>OPINIÃO</em></p>
<p>As ideias não são mais o que eram antes. Antigamente, elas incendiavam debates, estimulavam outros pensamentos, incitavam revoluções e alteravam a maneira como vemos e pensamos o mundo.</p>
<p>Elas podiam penetrar na cultura geral e transformar pensadores em celebridades -caso notável de Albert Einstein, mas também de Reinhold Niebuhr, Daniel Bell, Betty Friedan, Carl Sagan e Stephen Jay Gould, para citar alguns. As próprias ideias podiam ficar famosas -&#8221;o fim das ideologias&#8221;, &#8220;o meio é a mensagem&#8221; &#8220;a mística feminina&#8221;, &#8220;a teoria do Big Bang&#8221;, &#8220;o fim da história&#8221;. Uma grande ideia podia ser capa da &#8220;Time&#8221; -&#8221;Deus morreu?&#8221;-, e intelectuais americanos como Norman Mailer, William Buckley Jr. e Gore Vidal eram eventualmente convidados para &#8220;talk shows&#8221; de TV. Como isso faz tempo.</p>
<p>Se nossas ideias agora parecem menores, não é por sermos mais burros do que nossos antepassados, mas simplesmente porque não ligamos mais tanto para elas. Agora, ideias que não podem ser instantaneamente monetizadas têm tão pouco valor intrínseco que cada vez menos pessoas estão gerando-as, e cada vez menos veículos as disseminam.</p>
<p>Não é segredo, especialmente nos EUA, que vivemos numa era pós-iluminista em que a racionalidade, a ciência, a argumentação lógica e o debate perderam a batalha em muitos setores para a superstição, a fé, a opinião e a ortodoxia. Retrocedemos de modos avançados do pensamento para velhas crenças.</p>
<p>O guru ofusca o intelectual público, substituindo a reflexão pelo escândalo. O ensaio entrou em declínio nas revistas de interesse geral. E há a ascensão de uma cultura cada vez mais visual, especialmente entre os jovens -o que dificulta a expressão das ideias.</p>
<p>Mas a verdadeira causa de um mundo pós-ideias pode ser a própria informação. Numa época em que sabemos mais do que nunca, pensamos menos a respeito disso.</p>
<p>Graças à internet, parece que temos acesso imediato a qualquer coisa que se possa querer saber. No passado, por outro lado, coletávamos informações não apenas para saber as coisas, mas também para convertê-las em algo maior e eventualmente mais útil do que meros fatos -em ideias que davam sentido à informação. Buscávamos não só apreender o mundo como também compreendê-lo, o que é a função primária das ideias. Grandes ideias explicam o mundo e nos explicam.</p>
<p>Mas se a informação já foi a matéria-prima das ideias, ela se tornou, na última década, concorrente destas. Somos inundados por tantas informações que nem se quiséssemos -e a maioria não quer- teríamos tempo de processá-las.</p>
<p>A coleção em si é exaustiva: o que cada um dos nosso amigos está fazendo num momento específico e no próximo; com quem a Jennifer Aniston está saindo; qual vídeo se tornou viral no YouTube na última hora.</p>
<p>Com efeito, estamos vivendo sob uma lei de Gresham [um conceito econômico] aplicada à informação, em que a informação trivial expulsa a informação significativa, mas também sob uma lei de Gresham aplicada às ideias, em que a informação, trivial ou não, expulsa as ideias.</p>
<p>Preferimos saber a pensar, pois saber tem mais valor imediato. O saber nos mantém no circuito, conectados. Certamente não é por acaso que o mundo pós-ideias tenha brotado junto com o mundo das redes sociais.</p>
<p>Embora haja sites e blogs dedicados às ideias, o Twitter, o Facebook, o MySpace, o Flickr e outros são basicamente Bolsas de informação, criadas para alimentar a fome por informação, embora raramente o tipo de informação que gere ideias. É, em grande parte, algo inútil, exceto na medida em que faz o possuidor da informação se sentir informado. E esses sites estão suplantando o texto impresso, que é onde as ideias tipicamente têm sido gestadas.</p>
<p>São formas de distração ou de antipensamento.</p>
<p>As implicações de uma sociedade que já não pensa grande são enormes. Ideias não são apenas brinquedos intelectuais. Elas têm efeitos práticos.<br />
Um amigo meu se perguntou, por exemplo, onde estão os novos John Rawls e Robert Nozick, filósofos capazes de elevarem a nossa política.</p>
<p>Pode-se certamente argumentar o mesmo a respeito da economia onde John Maynard Keynes continua a ser o centro do debate quase 80 anos depois de propor a sua teoria do estímulo governamental.</p>
<p>Isso não quer dizer que os sucessores de Rawls e Keynes não existam, mas é improvável que eles consigam ganhar força numa cultura que vê tão pouca utilidade nas ideias. Todos os pensadores são vítimas do excesso de informação.</p>
<p>Sem dúvida haverá quem diga que as grandes ideias migraram para o mercado, mas há uma enorme diferença entre as invenções voltadas para o lucro e os pensamentos intelectualmente desafiadores. Alguns empreendedores, como Steve Jobs, da Apple, já tiveram ideias brilhantes, no sentido &#8220;inventivo&#8221; da palavra.</p>
<p>Essas ideias, porém, podem mudar a maneira como vivemos, mas não a forma como pensamos. Elas são materiais, e não relacionadas ao universo das ideias propriamente ditas. A nossa carência é de pensadores.</p>
<p>Nós nos tornamos narcisistas da informação, tão desinteressados por qualquer coisa alheia a nós ou ao nosso círculo de amizades, ou por qualquer migalha que não possamos dividir com esses amigos, que se um Marx ou Nietzsche de repente aparecesse berrando suas ideias ninguém prestaria a mínima atenção -certamente não a mídia geral, que aprendeu a atender ao nosso narcisismo.</p>
<p>O que o futuro anuncia é um volume cada vez maior de informação -Everests dela. Não haverá nada que não saibamos. Mas não haverá ninguém pensando a respeito. Pense nisso.</p>
<p><em>Neal Gabler é o autor de &#8220;Walt Disney: O Triunfo da Imaginação Americana&#8221; </em></p>
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		<title>MESMICE</title>
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		<pubDate>Mon, 03 Oct 2011 18:28:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diego Belo</dc:creator>
				<category><![CDATA[ARTIGOS]]></category>
		<category><![CDATA[CRIATIVIDADE]]></category>
		<category><![CDATA[FOLHA]]></category>

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		<description><![CDATA[Em 12 de setembro de 2011, Ricardo Semler, autor do best-seller Você está louco!, e articulista da Folha escreveu sobre um assunto banal, mas que não deixa de ser relevante. Muitas vezes, nos vemos diante dessa armadilha. A mesmice deixa o mundo cansativo. Boa leitura. Preto e prata, preto e prata Como se camaleões fôssemos, [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Em 12 de setembro de 2011, Ricardo Semler, autor do best-seller <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=3201336&#038;sid=62136623113926527535739853" target="_blank"><em>Você está louco!</em></a>, e articulista da <a href="http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saber/sb1209201104.htm" target="_blank">Folha</a> escreveu sobre um assunto banal, mas que não deixa de ser relevante. Muitas vezes, nos vemos diante dessa armadilha. A mesmice deixa o mundo cansativo. Boa leitura.</p>
<p><strong>Preto e prata, preto e prata</strong><br />
<em>Como se camaleões fôssemos, evitamos o realce; estamos protegidos se escolhemos a mesmice</em></p>
<p>Preste atenção e verá que quase todo carro é preto ou prata. Inclui cinza, digamos. Ando intrigado, nas estradas, pela hegemonia dessa paleta de cores, que soma 86% das escolhas.</p>
<p>Será que o brasileiro é um tanto triste, por isso fica entre nuances cinzentas? Seria diferente em outros países? E essas escolhas teriam relação com a uniformização iniciada na escola?</p>
<p>A DuPont estuda essa questão há 55 anos. Nos EUA há agora a tendência pelo branco. Na Itália e França vence uma cor que aqui não faz qualquer sucesso: o bege. Apenas na China é que o laranja sobressai. Na Escandinávia impera o prata, como em muitas regiões do mundo. Tem a razão leiga, que diz que carros cinzentos e pretos são mais fáceis de revender, e portanto vendem mais. Na linha do vende mais porque é fresquinho, e é fresquinho porque vende mais. Custo de seguro e chance de ser roubado não são muito relevantes.</p>
<p>Se olharmos para executivos num restaurante veremos cores básicas nos ternos e tailleurs. Se subirmos o olhar para a arquitetura de edifícios, veremos o triste e conservador neoclássico, e o bege nas paredes cansadas. Se procurarmos nas escolas algum alívio arquitetônico, seremos oprimidos pela mesmice.</p>
<p>Nas escolas infantis seremos derrotados pelas paredes internas coloridas, o exterior branco, um tanto de verde no paisagismo e um ar pseudofeliz de todos os adultos. As crianças têm e emprestam o animus que acende essa mesmice mesmo quando elas são uniformizadas com a exaustiva roupinha que faz delas um clichê ambulante.</p>
<p>As cores dos carros refletem, sim, um conservadorismo tribal. Como uniformes infantis. Somos criaturas de hábito, e esses hábitos miram a segurança. O alvo é o pertencer. Como se camaleões fôssemos, queremos evitar o realce. Estaremos mais protegidos dos inimigos, do roubo, do acidente, se escolhermos a mesmice. Camuflados pela perda de identidade, podemos relaxar.</p>
<p>Mas isso não é rota para a escola. É hora de começarmos a inovar. Não é outra a razão para a sala de aula, mesmo nestes tempos digitais, ter a mesma cara de 1860. Há muito tempo deveríamos ter abolido as carteiras, a lousa (e seus fac-símiles), e mesmo o edifício da escola como centro da educação.</p>
<p>Está na hora de pensarmos em diminuir a uniformidade que começa no infantil e que forma esses adultos que têm medo de escolher um carro ou roupa mais coloridos.</p>
<p>Centrar a educação em um aluno por vez não passa de clichê. Pensemos no que a escola pode arriscar, para que termine esta linha de montagem igualzinha, que produz estes adultos iguaizinhos para este mercado de trabalho igualzinho.</p>
<p>Mesmo tendo um carro prata, e o da minha esposa sendo preto, conclamo: haja uniformidade, minha gente, haja preto e prata.</p>
<p><em>RICARDO SEMLER, 52, é empresário. Foi scholar da Harvard Law School e professor de MBA no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Foi escolhido pelo Fórum Econômico de Davos como um dos Líderes Globais do Amanhã. Escreveu dois livros (&#8220;Virando a Própria Mesa&#8221; e &#8220;Você Está Louco&#8221;) que venderam juntos 2 milhões de cópias em 34 línguas. </em></p>
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		<title>START-UP</title>
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		<pubDate>Fri, 16 Sep 2011 02:42:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diego Belo</dc:creator>
				<category><![CDATA[EMPREENDEDORISMO]]></category>
		<category><![CDATA[FOLHA]]></category>
		<category><![CDATA[LIDERANÇA]]></category>

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		<description><![CDATA[Texto bom de ler do Julio Vasconcellos (Peixe Urbano), desta quinta, na Folha. Descrição de cargo: CEO de &#8216;start-up&#8217; Uma função essencial da liderança é contratar uma equipe que seja melhor do que a própria liderança UM BELO dia ao acordar me deparei com uma nova realidade em minha vida: estava à frente de uma [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Texto bom de ler do Julio Vasconcellos (Peixe Urbano), desta quinta, na <a href="http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/me1509201129.htm" target="_blank">Folha</a>.</p>
<p><strong>Descrição de cargo: CEO de &#8216;start-up&#8217;</strong><br />
<em><br />
Uma função essencial da liderança é contratar uma equipe que seja melhor do que a própria liderança</em></p>
<p>UM BELO dia ao acordar me deparei com uma nova realidade em minha vida: estava à frente de uma empresa com centenas de funcionários e que crescia em ritmo de deixar qualquer um atordoado. Tudo isso com mínima experiência prévia de gestão da minha parte.</p>
<p>Com um pouco mais de um ano de empresa, tive minha primeira crise existencial: Qual era a minha função como CEO? Como deveria estar investindo meu tempo? Será que havia algum cumprimento ou saudação secreta que eu ignorava?</p>
<p>Parti para buscar as respostas com algumas pessoas que já haviam passado (e sobrevivido!) por experiência parecida. Conversei com diversos líderes de empresas similares à nossa e de outras bastante diferentes. Eis as lições que aprendi ao tentar definir as funções do CEO em uma &#8220;start-up&#8221;.</p>
<p>O primeiro ensinamento que ouvi por repetidas vezes é o de que não há uma definição fechada ou absoluta. Embora no começo tenha resistido, por achar que tais afirmativas não contribuíam para minha busca, logo percebi que eram cruciais para definir o meu cargo.</p>
<p>Cada pessoa tem seu estilo próprio e cada empresa tem suas necessidades específicas -cabe a cada um definir como os dois devem se encaixar da melhor forma. Enquanto o melhor para a Apple foi ter um CEO como Steve Jobs, visionário em design, para a Ambev foram essenciais a ênfase em excelência operacional e a gestão preconizadas por Lemann, Telles e Sicupira.</p>
<p>Partindo do princípio de que a definição do meu cargo seria única para mim, defini três elementos centrais, todos bastante interligados, na minha descrição: definir estratégia e visão, liderar a comunicação e a cultura e escalar a organização.</p>
<p>A definição da estratégia e a visão da empresa são o ponto de partida e o mapa que ajudam a organização a traçar um caminho de como atingir o sucesso. Embora as melhores estratégias sejam as mais simples e lógicas, o processo para chegar a elas pode ser complexo.</p>
<p>No nosso caso, foi fruto de dezenas de discussões, ao longo de mais de um ano, entre a liderança da empresa e os membros do conselho. Também acredito que, embora a visão para o futuro deva ser estável, a estratégia de como realizá-la deve estar em constante evolução, adaptando-se a realidades do mercado assim como aos aprendizados que vão sendo incorporados.</p>
<p>A cultura da empresa é seu DNA e é elemento essencial na sua habilidade de executar uma estratégia vencedora. Cabe à liderança personificar a cultura que se deseja na empresa -querendo ou não, suas atitudes e ações definirão a cultura da organização.</p>
<p>Além de liderar pelo exemplo, cabe ao CEO ser o comunicador central da empresa, não só para reforçar a cultura da organização e seus valores centrais, mas também para difundir a estratégia e a visão para todos. Uma comunicação constante e clara é essencial para gerar esse alinhamento e o indispensável foco no que cada um deve fazer para realizar a visão da empresa.</p>
<p>Um elemento fundamental para uma &#8220;start-up&#8221; é a habilidade de escalar a organização à medida que a empresa e o mercado crescem, muitas vezes em ritmos aceleradíssimos. Escalabilidade é o que mantém a empresa funcionando de forma cada vez mais eficaz, seja com 10 ou com 10 mil funcionários.</p>
<p>Utilizo o acrônimo POP para descrever os três pilares de como manter a escalabilidade -pessoas, organização e processos. Uma função essencial da liderança é buscar contratar uma equipe que seja melhor do que a própria liderança.</p>
<p>Sempre buscando pessoas não para a organização que existe hoje, mas para aquela que existirá quando a visão for plenamente realizada. Além das pessoas certas, é essencial montar equipes e organizar a casa para que a empresa consiga gerar os melhores resultados.</p>
<p>Para pessoas e organizações fluírem bem também são necessários processos que traduzam as melhores práticas e garantam eficiência. Finalmente, é indispensável manter um espaço aberto para que a troca de ideias e de conhecimento ocorra de maneira saudável, preservando, assim, a flexibilidade e a rapidez que são elementos essenciais para a sobrevivência de uma &#8220;start-up&#8221;.</p>
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		<title>LONDRES É AQUI</title>
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		<pubDate>Sat, 03 Sep 2011 14:32:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diego Belo</dc:creator>
				<category><![CDATA[CALLIGARIS]]></category>
		<category><![CDATA[CONSUMO]]></category>
		<category><![CDATA[FOLHA]]></category>

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		<description><![CDATA[Interessante a reflexão do Calligaris, quinta-feira &#8211; 01/09/2011 -, na Folha. Saques, arrastões e &#8220;ressentiment&#8221; A turba que afugentou Luís 16 e Maria Antonieta de Versailles, em 1789, pedia pão porque estava com fome. A turba de Londres em 2011 pedia bugiganga eletrônica e roupa de marca -artigos que, aos olhos de muitos, parecem não [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Interessante a reflexão do <a href="http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0109201116.htm" target="_blank">Calligaris</a>, quinta-feira &#8211; 01/09/2011 -, na <a href="http://www.folha.uol.com.br/" target="_blank">Folha</a>.</p>
<p><strong>Saques, arrastões e &#8220;ressentiment&#8221;</strong></p>
<p>A turba que afugentou Luís 16 e Maria Antonieta de Versailles, em 1789, pedia pão porque estava com fome.</p>
<p>A turba de Londres em 2011 pedia bugiganga eletrônica e roupa de marca -artigos que, aos olhos de muitos, parecem não ser de primeira necessidade. Ou seja, aparentemente, a violência da turba de 1789 talvez fosse justificada, mas a de 2011 não é.</p>
<p>No domingo passado, na Folha, Eliane Trindade escreveu sobre meninas de rua que praticam arrastões em São Paulo. Elas procuram produtos para alisar o cabelo, celulares cor-de-rosa e lentes de contato verdes para mudar a cor dos olhos.</p>
<p>Alguém estranha que elas não prefiram uma comida boa ou uma roupa quente? Como disse uma menina, o que elas querem é ser bonitas (claro, nos moldes da cultura de massa). Será que, como a turba de Londres, elas seriam culpadas por não desejarem bens &#8220;de primeira necessidade&#8221;?</p>
<p>Não penso assim -e não é por indulgência com assaltos e arrastões. É porque, na nossa época, as &#8220;futilidades&#8221; são, no mínimo, tão relevantes e tão necessárias quanto era o pão em 1789. Explico.<br />
Em 1789, as diferenças eram de casta. Salvo filósofos perdidos na turba, as pessoas reunidas no protesto queriam manifestar sua indignação e satisfazer sua fome, mas não pensavam em mudar a ordem social e subir na vida. Na época, aliás, ninguém subia para lugar nenhum, as pessoas ocupavam o lugar que lhes cabia por nascimento.</p>
<p>À força de indignação e raiva, as coisas foram longe, até que ruiu o próprio regime de castas. Desde então, o que confere status não é mais o berço (nobre ou não) no qual a cegonha nos depositou, mas fatores que não dependem só do acaso: trabalho, riqueza, estilo, virtudes morais, cultura etc.</p>
<p>&#8220;Quem somos&#8221; depende de como conduzimos nossa vida e (indissociavelmente) de como ela é avaliada pelos outros. Para obter o reconhecimento de nossos semelhantes (sem o qual não somos nada), os objetos que nos circundam ajudam mais do que a barriga cheia; eles têm uma função parecida com a dos paramentos das antigas castas: declaram e mostram nosso status -se somos antenados, pop, fashion, sem noção, ricos, pobres ou emergentes, cultos ou iletrados.</p>
<p>Podemos achar cafonas os objetos roubados pelas meninas e pelos saqueadores (o consumo de massa desvaloriza seu consumidor), mas o que importa é que eles roubaram objetos que lhes eram necessários para existir, para ser &#8220;alguém&#8221; no mundo. Isso não justifica nem saques nem arrastões; mas vale notar que, na nossa época, as futilidades são, no mínimo, tão relevantes e necessárias quanto era o pão para o pessoal de 1789.</p>
<p>Outro aspecto. Houve quem detestou os saqueadores londrinos por eles não estarem interessados em alterar a ordem social: roubaram para ter as mesmas coisas que a gente e, portanto, chegar exatamente ao lugar que nós ocupamos agora. Para usar uma expressão clássica em filosofia, os saqueadores seriam um caso de &#8220;ressentiment&#8221;.</p>
<p>Nietzsche tomou o termo (e parte de seu sentido) de Kierkegaard. Modernizando, a ideia é a seguinte: &#8220;Não tive sorte ou, então, sou burro e preguiçoso, acho chato estudar e gosto de dormir. Sou invisível socialmente e invejo o bem-sucedido, que se pavoneia com seus objetos. Não quero me sentir culpado de minha condição; prefiro, portanto, acusar dela o bem-sucedido. Com isso, viverei minha mediocridade como se fosse o resultado da violência dos privilegiados, que gozam de tudo e não deixam nada para mim&#8221;.</p>
<p>Enfim, para se consolar, o ressentido inventa uma moral (social ou religiosa) pela qual, no futuro, seu perseguidor será destronado pela revolta ou queimará nas chamas do Inferno.</p>
<p>Nos bares da &#8220;facu&#8221; de filosofia, nos anos 1970, colegas de direita acusavam a revolução proletária de ser apenas um projeto ressentido. Respondíamos que a revolução não era ressentida, porque ela não queria vingança, não queria substituir a burguesia, apropriando-se de seus brinquedos: seu intuito era inaugurar um mundo diferente, onde todos gozaríamos de novos prazeres.</p>
<p>Desse ponto de vista, os saqueadores de Londres, eles sim, seriam simplesmente uns ressentidos, não é?</p>
<p>Pode ser, mas, antes de responder, recomendo paciência: o que hoje parece apenas &#8220;ressentiment&#8221; pode ser a faísca de mudanças que nem suspeitamos. Afinal, o pessoal de 1789 só pedia pão, e olhe o que aconteceu&#8230;</p>
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		<title>TOC, TOC, TOC</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Aug 2011 16:36:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diego Belo</dc:creator>
				<category><![CDATA[CULINÁRIA]]></category>
		<category><![CDATA[FOLHA]]></category>
		<category><![CDATA[NINA HORTA]]></category>

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		<description><![CDATA[Nina Horta (uma predestinada, como diria Zé Simão!) escreveu um texto delicioso ontem, em sua coluna, na Folha. Resposta à menina pequena O bom cozinheiro é obsessivo com essa história de limpeza, e você vai acabar obsessivo também Menina pequena que me pede como aprender a cozinhar. O que fazer para começar? Depende. Você ainda [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://ninahorta.folha.blog.uol.com.br/" target="_blank">Nina Horta</a> (uma predestinada, como diria Zé Simão!) escreveu um texto delicioso ontem, em sua <a href="http://www1.folha.uol.com.br/fsp/comida/co0408201128.htm" target="_blank">coluna</a>, na Folha.</p>
<p><strong>Resposta à menina pequena</strong><br />
<em>O bom cozinheiro é obsessivo com essa história de limpeza, e você vai acabar obsessivo também</em></p>
<p>Menina pequena que me pede como aprender a cozinhar. O que fazer para começar? Depende. Você ainda não sabe se será profissão, vocação, missão ou hobby. Vá aprendendo ao deus-dará e vivendo a vida. Estude bastante, aprenda uma língua &#8211; inglês, de preferência &#8211; leia muito, vá ao cinema, ao teatro, assista TV, aprenda a costurar ou bordar ou jogar bola. Tudo isso vai ser importante na hora de cozinhar.</p>
<p>Não se esqueça de jardinagem, nem de natação ou do salto de obstáculos e das pequenas e deliciosas coisas da vida, como tomar café de manhã sem ninguém por perto, numa manhã de sol brando.</p>
<p>As receitas propriamente ditas são recortes de um tempo, de um lugar, não são tão importantes. Mas é uma época divertida aquela em que se monta fichas, cadernos, cola-se recortes, anota-se no iPad.</p>
<p>Se quiser cursar gastronomia, tudo bem, mas qualquer outra que você curse vai ter o mesmo efeito, se começar a trabalhar com um bom chef num bom restaurante.</p>
<p>Não é sopa, mas é lá que você vai ver se gosta mesmo de cozinha. A disciplina é férrea, não tem hora para brincar. Diga adeus àquela minissaia vermelha, às flores no cabelo, à barriguinha de fora.</p>
<p>Cozinheiro que é cozinheiro tem o maior respeito e orgulho do uniforme.</p>
<p>Mas, não pense que é ficar toda linda, de toque branco e calça xadrez fazendo risoto de violetas.</p>
<p>Adivinhe quem vai lavar o chão no fim do dia? E deixar as bancadas brilhando como novas? Você, menina.</p>
<p>Se não suportar esse lado de limpar, lavar o que os outros sujaram, se não for paciente e obstinada, desista já enquanto é tempo.</p>
<p>Geralmente o bom cozinheiro é obsessivo com essa história de limpeza e você vai acabar obsessiva também.</p>
<p>A cozinha pede e a gente obedece, é uma coisa artesanal que pede muito as mãos, o jeito e a obediência aos chefes, o respeito pelo saber. Todo esse tempo você estará crescendo por dentro. Não que você não possa aprender algumas coisas sozinha, mas demora mais.</p>
<p>Tem uma hora que as primeiras técnicas vão ser dominadas e você lá, pimpona, toc, toc, toc, com aquela faca maravilhosa comprada com seu primeiro salário e guardada num envelope de pano, só sua, na sua faca ninguém mexe. Pode começar daí um comichão de criar.</p>
<p>Acho que li num livro do Bourdain, não me lembro, de um chef que entrevistava os candidatos a cozinheiro e dizia: &#8220;Depois escuto essa conversa de flores na salada, daqui a dois anos venha conversar comigo, mas agora quero você assando 15 pernis ao dia, na perfeição, ok?&#8221;</p>
<p>É uma profissão sofrida que te rouba muito da vida social, pois quando estão festejando o cozinheiro está lá, no fogão. Dá muito e muito prazer, também. Aprender pela vida inteira é um belo desafio.</p>
<p>Como a cozinha está ligada a tudo e todos, será um estudo sem fim, mas totalmente misturado a lugares, pessoas, costumes, tradições, técnicas novas. Prefere ficar no fogão do que na festa? Já é um sinal de &#8220;borralheira&#8221; que pode te levar um dia a Cinderela. Agora, se você escolhesse ser pianista ou médica seria muito diferente? Acho que não. Voltamos a conversar.</p>
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		<pubDate>Thu, 04 Aug 2011 16:31:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diego Belo</dc:creator>
				<category><![CDATA[ARTIGOS]]></category>
		<category><![CDATA[DESIGN OBSERVER]]></category>
		<category><![CDATA[FOLHA]]></category>
		<category><![CDATA[GLADWELL]]></category>

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		<description><![CDATA[Gladwell fez uma importante reflexão sobre os tempos atuais na Folha, em 12/12/2010. Seu texto questiona o poder das redes sociais enquanto meio para o ativismo. Interessante que, um tempo depois de ler o texto, encontrei outro, no imprescindível Design Observer, que questiona as ideias do Malcolm Gladwell. No fim das contas, a discussão é [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.gladwell.com/" target="_blank">Gladwell</a> fez uma importante reflexão sobre os tempos atuais na <a href="http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/il1212201004.htm" target="_blank">Folha</a>, em 12/12/2010. Seu texto questiona o poder das redes sociais enquanto meio para o ativismo. Interessante que, um tempo depois de ler o texto, encontrei <a href="http://changeobserver.designobserver.com/feature/malcolm-gladwell-is-wrong/19008/" target="_blank">outro</a>, no imprescindível <a href="http://changeobserver.designobserver.com/" target="_blank">Design Observer</a>, que questiona as ideias do Malcolm Gladwell. No fim das contas, a discussão é interminável e penso que todo mundo pode estar certo!</p>
<p><strong>A revolução não será tuitada</strong><br />
<em>Os limites do ativismo político nas redes sociais</em></p>
<p><strong>RESUMO</strong><br />
<em>O ativismo em redes sociais como o Facebook e o Twitter deriva de vínculos fracos entre seus participantes, que não correm riscos reais como os militantes tradicionais, unidos por vínculos fortes, em ações hierarquizadas e de alto risco, tais como as organizadas durante a campanha pelos direitos civis nos EUA dos anos 60.</em></p>
<p>MALCOLM GLADWELL<br />
Tradução PAULO MIGLIACCI</p>
<p>ÀS QUATRO E MEIA da tarde da segunda-feira 1º/2/1960, quatro universitários se sentaram ao balcão da lanchonete de uma loja Woolworth&#8217;s no centro de Greensboro, na Carolina do Norte. Eram calouros na North Carolina A&#038;T, faculdade para negros localizada a pouco mais de 1 km dali.</p>
<p>&#8220;Um café, por favor&#8221;, disse um deles, Ezell Blair, à garçonete.</p>
<p>&#8220;Não atendemos crioulos aqui&#8221;, ela respondeu.</p>
<p>O comprido balcão em L comportava 66 pessoas sentadas; numa das pontas, comia-se de pé. Os assentos eram para os brancos. A área onde se comia de pé era para os negros. Outra funcionária, uma negra encarregada da estufa, tentou convencê-los a sair: &#8220;Vocês estão sendo burros, seus ignorantes!&#8221;. Eles não se mexeram.</p>
<p>Por volta das cinco e meia as portas principais da loja foram fechadas. Os quatro continuaram lá. Por fim, saíram por uma porta lateral. Do lado de fora, formara-se uma pequena multidão, incluindo um fotógrafo do jornal &#8220;Record&#8221;, de Grensboro. &#8220;Volto amanhã, com o A&#038;T College inteiro&#8221;, disse um dos universitários.</p>
<p>Na manhã seguinte, o protesto havia se expandido e o grupo somava 27 homens e quatro mulheres, em grande parte do mesmo alojamento dos quatro manifestantes originais. Os homens estavam de terno e gravata. Todos levaram material e ficaram no balcão, estudando. Na quarta, veio a adesão dos alunos do colégio &#8220;para crioulos&#8221; de Greensboro, a Dudley High, e o número de manifestantes subiu a 80. Na quinta, já eram 300, incluindo três brancas, do campus local da Universidade da Carolina do Norte.</p>
<p>No sábado, o protesto contava 600 pessoas, espalhadas pelas calçadas em torno da loja. Adolescentes brancos assistiam, acenando com bandeiras da Confederação.1 Alguém soltou um rojão. Ao meio-dia, chegou o time de futebol americano da A&#038;T. &#8220;Lá vêm os baderneiros&#8221;, berrou um dos estudantes brancos.</p>
<p>Na segunda seguinte, o protesto já havia chegado a Winston-Salem, a 40 km dali, e Durham, a 80 km. No dia seguinte, veio a adesão dos alunos do Fayetteville State Teachers College e do Johnson C. Smith College, em Charlotte, seguidos, na quarta, pelos alunos do St. Augustine&#8217;s College e da Universidade Shaw, em Raleigh. Na quinta e na sexta, o protesto atravessou as divisas do Estado e novas manifestações surgiram em Hampton e Portsmouth, na Virgínia; em Rock Hill, na Carolina do Sul; e em Chattanooga, no Tennessee. No final do mês, manifestações semelhantes estavam sendo realizadas em todo o sul dos Estados Unidos, chegando até o Texas, no oeste.</p>
<p><strong>FEBRE</strong> &#8220;Perguntei a cada um dos estudantes que encontrei como tinha sido o primeiro dia de protesto em seu campus&#8221;, escreveu o cientista político Michael Waltzer ?em artigo na revista &#8220;Dissent&#8221;. &#8220;A resposta foi sempre a mesma: &#8216;Foi uma febre. Todo mundo queria participar&#8217;.&#8221;</p>
<p>Por fim, cerca de 70 mil estudantes aderiram. Milhares deles foram detidos, e outros tantos se radicalizavam. Esses acontecimentos do começo dos anos 60 se tornaram uma guerra dos direitos civis que engolfou o sul dos Estados Unidos até o final da década -e tudo aconteceu sem e-mail, mensagens de texto, Facebook ou Twitter.</p>
<p><span id="more-386"></span></p>
<p>Dizem que o mundo passa por uma revolução. As novas ferramentas de redes sociais reinventaram o ativismo social. Com Facebook, Twitter e que tais, a relação tradicional entre autoridade política e vontade popular foi invertida, o que facilita a colaboração mútua e a organização dos desprovidos de poder e dá voz às suas preocupações.</p>
<p><strong>REVOLUÇÃO VIA TWITTER</strong> Quando 10 mil pessoas saíram às ruas na Moldova, no leste europeu, segundo trimestre de 2009, em protesto contra o governo comunista, a ação ganhou o nome de revolução via Twitter, por causa dos meios utilizados para arregimentar os manifestantes.</p>
<p>Meses depois, quando protestos estudantis abalaram Teerã, o Departamento de Estado americano tomou a providência inusual de solicitar ao Twitter que suspendesse uma pausa programada para manutenção do site, pois o governo não desejava que uma ferramenta tão vital estivesse inativa no auge das manifestações. &#8220;Sem o Twitter, o povo do Irã não se teria sentido capaz e confiante o bastante para sair em defesa da liberdade e da democracia&#8221;, escreveu o ex-assessor de segurança nacional Mark Pfeifle, clamando para que o Twitter ganhasse o Prêmio Nobel da Paz.</p>
<p>Se antes os ativistas eram definidos por suas causas, agora são definidos pelas ferramentas que empregam. Os guerreiros do Facebook entram na internet para pressionar por mudanças. &#8220;Vocês são a nossa grande esperança&#8221;, disse James Glassman, ex-alto funcionário do Departamento de Estado, a uma plateia de ciberativistas em recente conferência patrocinada por Facebook, AT&#038;T (companhia telefônica), Howcast (site de vídeos), MTV e Google.</p>
<p>Sites como o Facebook, disse Glassman, &#8220;oferecem aos EUA uma considerável vantagem competitiva diante dos terroristas. Algum tempo atrás, eu disse que &#8216;a Al Qaeda está jantando a gente na internet&#8217;. Já não é mais assim. A Al Qaeda continua parada na Web 1.0. A internet agora é interatividade e conversação&#8221;.</p>
<p><strong>CRÍTICA</strong> São alegações fortes e intrigantes. Que importa quem janta quem na internet? As pessoas que estão no Facebook são mesmo a nossa grande esperança? Quanto à chamada revolução via Twitter na Moldova, Evgeny Morozov, pesquisador na Universidade Stanford que vem sendo um dos mais persistentes críticos do evangelismo digital, aponta que a importância do Twitter é quase nula na Moldova, onde existem pouquíssimas contas desse serviço.</p>
<p>E o que aconteceu lá tampouco parece ter sido uma revolução, especialmente porque as manifestações -como sugeriu Anna Applebaum em artigo no &#8220;Washington Post&#8221;- na verdade podem ter sido uma encenação organizada pelo governo. (Num país paranoico com o revanchismo romeno, os manifestantes hastearam uma bandeira da Romênia na sede do Parlamento.)<br />
Já no caso do Irã, as pessoas que usaram o Twitter para comentar as manifestações viviam quase todas no Ocidente. &#8220;É hora de esclarecer o papel do Twitter nos acontecimentos do Irã&#8221;, escreveu Golnaz Esfandiari meses atrás, na revista &#8220;Foreign Policy&#8221;. &#8220;Em resumo: no Irã, não houve revolução via Twitter.&#8221;</p>
<p>O elenco de blogueiros proeminentes, como Andrew Sullivan, que defendeu o papel da rede social no Irã, acrescentou Esfandiari, não entendeu direito a situação. &#8220;Jornalistas ocidentais que não conseguiam -ou nem mesmo tentavam- se comunicar com gente no Irã simplesmente percorriam a lista de &#8216;tweets&#8217; em inglês, contendo a tag #iranelection&#8221;, 2 escreveu ela. &#8220;Enquanto isso, ninguém parece ter se perguntado por que pessoas que supostamente tentavam coordenar os protestos no Irã não estariam se comunicando em farsi, mas em outro idioma&#8221;.</p>
<p>Parte dessa grandiloquência é previsível. Inovadores tendem ao solipsismo. Volta e meia se empenham em enquadrar em seus novos modelos os fatos e experiências mais díspares.</p>
<p>Como escreveu o historiador Robert Darnton, &#8220;as maravilhas da tecnologia de comunicação no presente produziram uma falsa consciência sobre o passado -e até mesmo a percepção de que a comunicação não tem história, ou nada teve de importante a considerar antes dos dias da televisão e da internet&#8221;.</p>
<p><strong>ENTUSIASMO</strong> Mas há mais um fator em jogo nesse desproporcional entusiasmo em relação às redes sociais. Cinquenta anos depois de um dos mais extraordinários episódios de sublevação social na história dos EUA, parece que esquecemos o que é ativismo.</p>
<p>No começo dos anos 60, Greensboro era o tipo do lugar onde a insubordinação racial era rotineiramente reprimida com violência. Os quatro primeiros universitários a se sentar ao balcão reservado aos brancos estavam apavorados. &#8220;Se alguém tivesse chegado por trás de mim e gritado &#8216;bu&#8217;, acho que eu cairia no chão&#8221;, disse um deles mais tarde.</p>
<p>No primeiro dia, o gerente notificou o chefe de polícia, que imediatamente enviou dois policiais para a loja. No terceiro dia, um grupo de brutamontes brancos apareceu na lanchonete e se postou ameaçadoramente atrás dos manifestantes, proferindo epítetos como &#8220;crioulo de cabelo ruim&#8221;. Um líder local da Ku Klux Klan apareceu. No sábado, enquanto a tensão crescia, alguém telefonou e deu um alarme falso de bomba e a loja teve de ser evacuada.</p>
<p>Os perigos eram mais claros no Mississippi Freedom Summer Project de 1964, outra campanha pioneira do movimento pelos direitos civis. O Student Nonviolent Coordinating Committee recrutou centenas de voluntários não remunerados no norte dos EUA, quase todos brancos, para lecionar nas Freedom Schools, alistar eleitores negros e promover os direitos civis no sul profundo.</p>
<p>&#8220;Ninguém pode ir sozinho a lugar nenhum, muito menos de carro e à noite&#8221;, eram as instruções dadas aos voluntários. Poucos dias depois de chegarem ao Mississippi, três deles -Michael Schwerner, James Chaney e Andrew Goodman- foram sequestrados e assassinados; até o final daquele verão, 37 igrejas negras seriam incendiadas e dezenas de casas usadas como abrigos foram atacadas com bombas; voluntários foram espancados, alvejados e perseguidos por picapes repletas de homens armados. Um quarto dos participantes do programa desistiram. Ativismo que desafia o status quo -e ataca problemas profundamente enraizados- não é para bundas-moles.</p>
<p><strong>COMPROMISSO</strong> O que leva uma pessoa a esse tipo de ativismo? Doug McAdam, sociólogo na Universidade Stanford, comparou os desertores do programa Freedom Summer com os que optaram por ficar, e descobriu que a diferença crucial, ao contrário do que se poderia esperar, não era o fervor ideológico. &#8220;Todos os inscritos -tanto os que ficaram quanto os que desistiram- estavam altamente comprometidos com a causa e eram partidários articulados das metas e valores do programa&#8221;, concluiu.</p>
<p>O fator decisivo foi o grau de conexão pessoal entre a pessoa e o movimento pelos direitos civis. Pedia-se a todos os voluntários que fornecessem uma lista de contatos pessoais -as pessoas que desejavam manter a par de suas atividades-, e assim a probabilidade de ter amigos que também estivessem indo ao Mississippi era bem mais alta entre os que ficaram do que entre os que abandonaram o programa. O ativismo de alto risco, concluiu McAdam, é um fenômeno de &#8220;vínculos fortes&#8221;.</p>
<p>O padrão se repete em boa parte de casos. Um estudo sobre as Brigate Rosse [Brigadas Vermelhas], grupo terrorista italiano dos anos 70, constatou que 70% de seus recrutas já tinham pelo menos um grande amigo na organização. O mesmo se aplica aos homens que aderiram aos Mujahideen do Afeganistão. Até mesmo manifestações revolucionárias que parecem espontâneas, como as que conduziram à queda do Muro de Berlim, na Alemanha Oriental, são, em seu âmago, fenômenos de vínculos fortes.</p>
<p>O movimento oposicionista da Alemanha Oriental consistia em centenas de grupos, cada qual formado por cerca de uma dúzia de membros. Cada grupo tinha contato limitado com os demais: na época, apenas 13% dos alemães orientais tinham telefone. Tudo o que sabiam era que, nas noites de segunda, diante da igreja de São Nicolau, no centro de Leipzig, as pessoas se reuniam para expressar sua ira contra o Estado. E o determinante primário daqueles que compareciam eram os &#8220;amigos críticos&#8221; -quanto mais amigos críticos ao regime uma pessoa tivesse, maior a probabilidade de adesão ao protesto.</p>
<p><strong>LIGAÇÕES</strong> Portanto, um fato crucial sobre os quatro calouros que foram à lanchonete segregada de Greensboro -David Richmond, Franklin McCain, Ezell Blair e Joseph McNeil- eram as ligações mútuas que mantinham. McNeil dividia o quarto com Blair no alojamento da A&#038;T. No andar de cima, Richmond dividia o quarto com McCain; e Blair, Richmond e McCain foram alunos da Dudley High School.</p>
<p>Os quatro levavam cerveja às escondidas para o alojamento e conversavam noite afora, no quarto de Blair e McNeil. Tinham na memória o assassinato de Emmett Till, em 1955; o boicote aos ônibus de Montgomery, no Alabama, no mesmo ano; e o confronto em Little Rock, no Arkansas, em 1957.</p>
<p>Foi McNeil que apareceu com a ideia do protesto na Woolworth&#8217;s. Discutiram o assunto por quase um mês. Um dia, McNeil entrou no quarto e perguntou aos amigos se estavam prontos.<br />
Houve uma pausa e McCain disse, de um jeito que só funciona entre amigos que passaram longas madrugadas conversando: &#8220;Vocês vão arregar ou vamos em frente?&#8221;. Ezell Blair tomou coragem para pedir aquele café, no dia seguinte, porque estava na companhia de seu colega de quarto e de dois grandes amigos desde o ensino médio.</p>
<p><strong>VÍNCULOS FRACOS</strong> O ativismo associado às redes sociais nada tem em comum com isso. As plataformas dessas redes são construídas em torno de vínculos fracos. O Twitter é uma forma de seguir (ou ser seguido por) pessoas que talvez nunca tenha encontrado cara a cara. O Facebook é uma ferramenta para administrar o seu elenco de conhecidos, para manter contato com pessoas das quais de outra forma você teria poucas notícias. É por isso que se pode ter mil &#8220;amigos&#8221; no Facebook, coisa impossível na vida real.</p>
<p>Sob muitos aspectos, isso é maravilhoso. Há força nos vínculos fracos, como observou o sociólogo Mark Granovetter. Nossos conhecidos -e não nossos amigos- são a nossa maior fonte de novas ideias e informações. A internet nos permite explorar a potência dessas formas de conexão distante com eficiência maravilhosa.</p>
<p>É sensacional para a difusão de inovações, para a colaboração interdisciplinar, para integrar compradores e vendedores e para as funções logísticas das conquistas amorosas. Mas vínculos fracos raramente conduzem a ativismo de alto risco.</p>
<p><strong>VIRTUDES</strong> Em um livro chamado &#8220;The Dragonfly Effect &#8211; Quick, Effective, and Powerful Ways to Use Social Media to Drive Social Change&#8221; [O Efeito Libélula - Maneiras Rápidas, Efetivas e Poderosas de Utilizar Redes Sociais para Promover Mudanças Sociais, ed. Jossey-Bass], o consultor de negócios Andy Smith e Jennifer Aaker, professora na escola de admininistração de empresas de Stanford, contam a história de Sameer Bhatia, jovem empresário do Vale do Silício que um dia descobriu estar sofrendo de leucemia mielálgica aguda. O caso serve como perfeita ilustração sobre as virtudes das redes sociais.</p>
<p>Bhatia precisava de um transplante de medula óssea, mas não encontrou doador entre seus parentes e amigos. As chances seriam maiores caso o doador tivesse sua etnia, e havia poucos doadores do sul da Ásia no banco de dados de medula óssea americano.</p>
<p>Por isso, o sócio de Bhatia enviou um e-mail no qual explicava o problema do amigo a mais de 400 de seus conhecidos, que por sua vez o encaminharam a seus contatos; páginas de Facebook e vídeos no YouTube foram criados para a campanha Help Sameer. Por fim, quase 25 mil novos doadores se inscreveram no banco de dados e Bhatia encontrou um compatível com ele.</p>
<p>Mas como a campanha conseguiu a adesão de tanta gente? Porque não pedia nada de mais aos participantes. É a única forma de conseguir que alguém que você não conhece de verdade faça alguma coisa em seu benefício. Dá para conseguir que milhares de pessoas se inscrevam como doadores porque fazê-lo é facílimo. Basta enviar uma amostra simples de material genético -no altamente improvável caso de que a medula óssea do doador seja compatível com alguém que precise- passar algumas horas no hospital.</p>
<p>Doar medula óssea não é trivial. Mas não envolve risco financeiro ou pessoal; não implica passar um verão inteiro sendo perseguido por picapes repletas de homens armados. Não requer confronto com normas e práticas sociais arraigadas. Na verdade, é o tipo do engajamento que só traz elogios e reconhecimento social.</p>
<p><strong>DISTINÇÃO</strong> Os evangelistas das redes sociais não compreendem essa distinção; parecem acreditar que um amigo de Facebook e um amigo real são a mesma coisa, e que se inscrever em uma lista de doadores no Vale do Silício, hoje, é ativismo no mesmo sentido que pedir um café num restaurante segregado de Greensboro em 1960.</p>
<p>&#8220;As redes sociais são especialmente eficazes para reforçar a motivação&#8221;, escreveram Aaker e Smith. Mas não é verdade. As redes sociais são eficazes para ampliar a participação -mas reduzindo o nível de motivação que a participação exige.</p>
<p>A página da Save Darfur Coalition no Facebook tem 1.282.339 membros, cuja doação média é de nove centavos de dólar per capita. A segunda maior entidade de assistência a Darfur no Facebook tem 22.073 membros, e suas doações per capita são de 35 centavos de dólar. A Help Save Darfur tem 2.797 membros, que doaram, em média, 15 centavos de dólar.</p>
<p>Um porta-voz da Save Darfur Coalition disse à revista &#8220;Newsweek&#8221; que &#8220;não avaliamos necessariamente o valor de alguém para o movimento com base nos montantes doados. Este é um mecanismo poderoso para promover o envolvimento de uma população crítica. Eles informam a comunidade, participam de eventos, fazem trabalho voluntário. Não é algo que se possa medir por números&#8221;.</p>
<p>Em outras palavras, o ativismo no Facebook dá certo não ao motivar pessoas para que façam sacrifícios reais, mas sim ao motivá-las a fazer o que alguém faz quando não está motivado o bastante para um sacrifício real. Estamos muito longe do balcão da lanchonete de Greensboro.</p>
<p><strong>CAMPANHA MILITAR</strong> Os estudantes que participaram de protestos no sul dos EUA nos primeiros meses de 1960 descreveram o movimento como &#8220;uma febre&#8221;. Mas o movimento dos direitos civis tinha mais de campanha militar que de contágio.</p>
<p>No final dos anos 50, 16 protestos semelhantes haviam sido organizados em diversas cidades sulistas, 15 dos quais formalmente coordenados por organizações de direitos civis como a NAACP [sigla em inglês da Associação Nacional para o Progresso da População de Cor] e a CORE [sigla em inglês de Congresso da Igualdade Racial]. Possíveis locais para protestos foram mapeados. Traçaram-se planos. Ativistas do movimento promoveram sessões de treinamento e retiros com potenciais participantes.</p>
<p>Os quatro de Greensboro surgiram como produto desse trabalho de base: eram membros do Conselho da Juventude da NAACP. Tinham fortes ligações com o diretor da seção local da organização. Foram informados sobre a onda anterior de protestos em Durham, e participaram de uma série de reuniões do movimento em igrejas ativistas.</p>
<p>Quando os protestos se espalharam pelo sul a partir de Greensboro, a difusão não ocorreu de modo aleatório. Os protestos surgiram em cidades que já tinham células do movimento -núcleos de ativistas dedicados e treinados, prontos para converter a &#8220;febre&#8221; em ação.</p>
<p><strong>ALTO RISCO</strong> O movimento dos direitos civis era ativismo de alto risco. Era também, e isso é importante, ativismo estratégico: um desafio ao establishment, montado com precisão e disciplina. A NAACP era uma organização centralizada, com comando em Nova York, segundo procedimentos operacionais altamente formalizados.</p>
<p>Na Southern Christian Leadership Conference, Martin Luther King Jr. (1929-68) exercia inquestionável autoridade. A igreja negra tinha posição central no movimento e, como aponta Aldon Morris em seu &#8220;The Origins of the Civil Rights Movement&#8221;, esplêndido estudo publicado em 1984, mantinha uma divisão de tarefas cuidadosamente demarcadas, com diversos comitês permanentes e grupos disciplinados.</p>
<p>&#8220;Cada grupo tinha uma missão definida e coordenava suas atividades por meio de estruturas de autoridade&#8221;, escreve Morris. &#8220;Os indivíduos eram responsáveis pelas tarefas que lhes eram designadas e conflitos importantes eram resolvidos pelo pastor, que em geral exercia a autoridade final sobre a congregação.&#8221;</p>
<p><strong>HIERARQUIA</strong> Essa é a segunda distinção crucial entre o ativismo tradicional e sua variante on-line: as redes sociais não se prestam a esse tipo de organização hierárquica.</p>
<p>O Facebook e sites semelhantes são ferramentas para a construção de redes e, em termos de estrutura e caráter, são o oposto das hierarquias. Ao contrário das hierarquias, com suas regras e procedimentos, as redes não são controladas por uma autoridade central e única. As decisões são tomadas por consenso, e os vínculos que unem as pessoas ao grupo são frouxos.</p>
<p>Essa estrutura torna as redes imensamente flexíveis e adaptáveis a situações de baixo risco. A Wikipédia é um exemplo perfeito. Não há um editor instalado em Nova York que direcione e corrija cada verbete. O esforço de produção de cada entrada é auto-organizado. Caso todos os verbetes da Wikipédia sejam apagados amanhã, o conteúdo será rapidamente restaurado, porque é isso que acontece quando uma rede de milhares de pessoas dedica tempo a uma tarefa espontaneamente.</p>
<p>Há, no entanto, muitas coisas que redes não fazem direito. As montadoras de automóveis, sensatamente, usam uma estrutura de rede para organizar suas centenas de fornecedores, mas não para projetar os carros. Ninguém acreditaria que a articulação de uma filosofia coerente de design funcionasse melhor na forma de um sistema organizacional disperso e sem líderes.</p>
<p>Carecendo de uma estrutura centralizada de liderança e de linhas de autoridade claras, as redes encontram dificuldades reais para chegar a consensos e estabelecer metas. Não conseguem pensar de modo estratégico; são cronicamente propensas a conflitos e erros. Como fazer escolhas difíceis sobre táticas, estratégias ou orientação filosófica quando todo mundo tem o mesmo poder?</p>
<p><strong>PROBLEMAS</strong> A Organização para a Libertação da Palestina (OLP) surgiu como rede, e, em ensaio recentemente publicado no periódico &#8220;International Security&#8221;, os especialistas em relações internacionais Mette Eilstrup-Sangiovanni e Calvert Jones argumentam que esse é o motivo para que a organização tenha encontrado tantos problemas ao crescer: &#8220;Traços estruturais característicos das redes -ausência de autoridade central, autonomia irrestrita de grupos rivais e incapacidade de arbitrar disputas por meio de mecanismos formais- tornaram a OLP excessivamente vulnerável à manipulação externa e às disputas internas&#8221;.</p>
<p>&#8220;Na Alemanha dos anos 70&#8243;, os dois prosseguem, &#8220;os terroristas de esquerda, muito mais unidos e bem-sucedidos, tendiam a se organizar hierarquicamente, com gestão profissional e clara divisão de tarefas. Estavam geograficamente concentrados nas universidades, onde podiam estabelecer liderança central, confiança e camaradagem por meio de reuniões regulares, cara a cara&#8221;.</p>
<p>Era raro que entregassem seus companheiros de armas nos interrogatórios da polícia. Já seus equivalentes na direita se organizavam como redes descentralizadas e não mantinham disciplina semelhante. Era comum que esses grupos fossem infiltrados, e que seus membros, quando detidos pela polícia, entregassem facilmente seus companheiros. De forma semelhante, a Al Qaeda era mais perigosa quando mantinha uma hierarquia unificada. Agora que se dissipou em rede, vem se mostrando bem menos eficaz.</p>
<p><strong>MUDANÇA SISTÊMICA</strong> As desvantagens das redes pouco importam quando não estão interessadas em mudança sistêmica -caso desejem apenas assustar, humilhar ou fazer barulho-, ou quando não precisam pensar estrategicamente. Mas, se o objetivo é combater um sistema poderoso e organizado, é preciso uma hierarquia. O boicote ao serviço de ônibus em Montgomery exigiu a participação de dezenas de milhares de pessoas que dependiam do transporte público para ir ao trabalho e voltar todo dia. E durou um ano.</p>
<p>A fim de persuadir as pessoas a se manterem fiés à causa, os organizadores encarregaram cada igreja negra local de manter o moral alto e montaram um sistema alternativo de transporte solidário que contava com 48 telefonistas e 42 pontos de parada. Até mesmo o Conselho de Cidadãos Brancos, King afirmou mais tarde, reconheceu que o sistema de transporte solidário funcionava com &#8220;precisão militar&#8221;.</p>
<p>Quando King foi a Birmingham, no Alabama, para o confronto decisivo com o comissário de polícia da cidade, Eugene &#8220;Bull&#8221; Connor, contava com orçamento de US$ 1 milhão e uma equipe de 100 funcionários em período integral, já instalados na cidade e divididos em células operacionais. A ação foi dividida em fases, que se intensificavam gradualmente e eram mapeadas com antecedência. O apoio foi mantido por meio de sucessivas assembleias, num rodízio entre as igrejas da cidade.</p>
<p><strong>LEGITIMIDADE MORAL</strong> Boicotes, protestos e confrontos não violentos -armas preferenciais do movimento pelos direitos civis- são estratégias de alto risco. Deixam pouca margem para conflito e erro. No momento em que um único manifestante abandona o roteiro e reage a uma provocação, a legitimidade moral de todo o protesto fica comprometida. Os entusiastas das redes sociais sem dúvida gostariam que acreditássemos que a tarefa de King em Birmingham seria imensamente facilitada se ele pudesse usar o Facebook para se comunicar com seus seguidores e se contentasse em enviar tweets de uma cela.</p>
<p>Mas as redes são confusas -pense no padrão incessante de correção e revisão, emendas e debates, que caracteriza a Wikipédia. Caso Martin Luther King tivesse tentado um &#8220;wiki-boicote&#8221; em Montgomery, teria sido esmagado pela estrutura do poder branco. E que uso teria uma ferramenta de comunicação digital numa cidade na qual 98% da comunidade negra podia ser contatada na igreja, todo domingo? Em Birmingham, King precisava de disciplina e estratégia, o tipo de coisas que as redes sociais não são capazes de fornecer.</p>
<p><strong>PODER DE ORGANIZAÇÃO</strong> A bíblia do movimento das redes sociais é &#8220;Here Comes Everybody&#8221;, de Clay Shirky, professor na Universidade de Nova York. Ele procura demonstrar o poder de organização da internet e começa pela história de Evan, que trabalhava em Wall Street, e de sua amiga Ivanna, que esqueceu seu smart-phone, um caro Sidekick, no banco de um táxi nova-iorquino.</p>
<p>A companhia telefônica transferiu os dados do celular perdido de Ivanna a um novo aparelho e assim a proprietária e Evan descobriram que o Sidekick estava em posse de uma adolescente do Queens, que vinha usando o aparelho para tirar fotos de si mesma e de suas amigas.</p>
<p>Quando Evan lhe enviou um e-mail pedindo que devolvesse o celular, Sasha respondeu que ele era um &#8220;bundão branco&#8221; que não merecia tê-lo de volta. Irritado, ele montou uma página na web com uma foto de Sasha e uma descrição do ocorrido. Encaminhou o link aos amigos, que o repassaram a outros amigos. Alguém localizou a página do namorado de Sasha no MySpace e um link para ela foi criado no site.</p>
<p>Alguém descobriu o endereço dela na web e gravou um vídeo mostrando a casa quando passou de carro por lá; Evan postou o vídeo no site. A história ganhou destaque no Digg, um site agregador de notícias. Evan passou a receber dez e-mails por minuto. Criou um fórum on-line para que seus leitores contassem suas histórias, mas as visitas eram tantas que o servidor vivia caindo.</p>
<p>Evan e Ivanna procuraram a polícia, mas o boletim de ocorrência definia o celular como &#8220;perdido&#8221;, e não &#8220;roubado&#8221;, o que significava que, na prática, o caso estava encerrado.</p>
<p>&#8220;Àquela altura, milhões de leitores estavam acompanhando&#8221;, escreve Shirky, &#8220;e dezenas de veículos da mídia convencional haviam mencionado a história&#8221;. Cedendo à pressão, a polícia de Nova York reclassificou o celular como &#8220;roubado&#8221;. Sasha foi detida e a amiga de Evan conseguiu o Sidekick de volta.</p>
<p>O argumento de Shirky é o de que esse é o tipo de coisa que jamais poderia ter acontecido na era anterior à internet -e ele tem razão. Evan não teria conseguido localizar Sasha.</p>
<p>A história do Sidekick jamais teria sido divulgada. Um exército de pessoas não se teria formado para participar da batalha. A polícia não teria cedido à pressão de uma pessoa só, por algo tão trivial quanto um celular perdido. O caso, na opinião de Shirky, ilustra &#8220;a facilidade e rapidez com que um grupo pode ser mobilizado para o tipo certo de causa&#8221; na era da internet.</p>
<p><strong>PERIGO</strong> Na opinião de Shirky, esse modelo de ativismo é superior. Mas, na verdade, não passa de uma forma de organização que favorece as conexões de vínculo fraco que nos dão acesso a informações, em detrimento das conexões de vínculo forte que nos ajudam a perseverar diante do perigo.</p>
<p>Transfere nossas energias das entidades que promovem atividades estratégicas e disciplinadas para aquelas que promovem flexibilidade e adaptabilidade. Torna mais fácil aos ativistas se expressarem e, mais difícil, que essa expressão tenha algum impacto.</p>
<p>Os instrumentos de redes sociais estão aptos a tornar a ordem social existente mais eficiente. Não são inimigos naturais do status quo. Se, na sua opinião, o mundo só precisa de um ligeiro polimento, isso não deve lhe causar preocupação. Mas se você acredita que ainda existem lanchonetes por serem integradas ao mundo, essa tendência deveria incomodá-lo.</p>
<p>Grandiloquente, Shirky encerra a história do Sidekick perdido perguntando: &#8220;O que virá a seguir?&#8221; -e, sem dúvida, imagina futuras ondas de manifestantes digitais.<br />
Mas ele mesmo já respondeu à pergunta. O que virá é a mesma coisa, repetidamente. Um mundo feito de redes e vínculos fracos é bom para coisas como ajudar gente de Wall Street a recuperar celulares das mãos de garotas adolescentes. Viva la revolución.</p>
<p><em>Nota do tradutor<br />
1. Estados do sul dos EUA que se uniram contra os do norte do país durante a Guerra de Secessão (1861-65).<br />
2. No serviço de microblogs Twitter, as &#8220;tags&#8221; são termos precedidos do símbolo #, utilizados para reunir todas as mensagens sobre um mesmo assunto, como #ilustrissima.</em></p>
<p>Agora, o contraditório, de <a href="http://changeobserver.designobserver.com/feature/malcolm-gladwell-is-wrong/19008/" target="_blank">10/06/10</a>.</p>
<p><strong>Malcolm Gladwell Is #Wrong</strong><br />
<em>A retort to the writer who claims that social media are not effective tools for activism.</em></p>
<p>By Maria Popova</p>
<p><img src="http://www.amodesign.com.br/blog/wp-content/uploads/2011/08/macolm_525.jpg" alt="" title="macolm_525" width="525" height="371" class="aligncenter size-full wp-image-387" /></p>
<p>Malcolm Gladwell&#8217;s take on social media is like a nun&#8217;s likely review of the Kama Sutra — self-righteous and misguided by virtue of voluntary self-exclusion from the subject. But while the nun&#8217;s stance reflects adherence to a moral code, Gladwell&#8217;s merely discloses a stubborn opinion based on little more than a bystander’s observations.</p>
<p>Gladwell, who has built a wildly successful career curating and synthesizing other people&#8217;s research for the common reader’s consumption, has been surprisingly remiss in examining the social web’s impact on various forms of activism. In a recent New Yorker article, in fact, he declared that &#8220;the revolution will not be tweeted&#8221; — that social media are practically useless when it comes to serious activism. While I don&#8217;t question his remarkable intelligence or unique talent — I fully subscribe to the work of psychologist Howard Gardner, whose latest book, Five Minds for the Future, demonstrates the value of the kind of synthesizer mind Gladwell possesses — I find it incongruous for a man who has abstained from participation in social media to weigh in on their value for civic action. (Gladwell has a page on Facebook but not a profile. He exists on the site much as Van Gogh does: you can’t “friend” him but you can “like” him. The profiles set up in his name, as Gladwell himself points out, are phonies created by someone else.)</p>
<p>Gladwell&#8217;s argument rests on two main ideas: first, that the social web is woven of what he calls &#8220;weak ties&#8221; between people, whereas activism is driven by &#8220;strong ties.&#8221; Second, that social networks are inherently devoid of hierarchy, which is central to the success of any organized civic movement. There is certainly strong sociological evidence to support the latter parts of both statements, but his claims about the nature of online social networks are myopic, occluded by highly selective evidence.</p>
<p>Let’s look at Gladwell&#8217;s definition of activism, or lack thereof. His examples come from the civil rights movement of the 1960s and, more specifically, the lunch counter sit-ins in Greensboro, North Carolina. While these were nonviolent confrontations, Gladwell points to the risk of violence and personal harm as the litmus test for true engagement. On the social web, he says, such high-stake risks don&#8217;t exist, which makes web-driven activism an oxymoron.</p>
<p>We need a definition of what activism is, not what it is not, before we can argue for or against its existence. As far as I&#8217;m concerned, activism is any action or set of actions, be it organized, grassroots or self-initiated, that aims to resolve a problem that diminishes the quality of life of individuals, communities or society. The civil rights movement is one example: it sought to bring equality and justice across racial borders. The suffrage movement is another: it sought to give women equal rights as political and social agents.</p>
<p>As democracy in the West (for lack of a better term) has evolved over the past century, however, certain basic battles for human rights have been won, at least on an institutional, political and legal level. While racism, sexism and other forms of bigotry may be alive and well in individuals, they are not condoned by our culture. Instead, the evolution of technology and society has brought on new challenges to democracy, calling for new focal points of activism. For instance, data democracy and free speech have become contemporary battlegrounds.</p>
<p>While I am the first to admit that the social web provokes what the New York Times writer Barnaby Feder has termed &#8220;slacktivism&#8221; — the tendency to passively affiliate ourselves with causes for the sake of peer approval rather than taking real, high-stakes action to support them – we have ample evidence that the social web not only brings critical awareness to issues of humanitarian and ecological importance, but also incites action around them.</p>
<p>In his fascinating research on social networks, the Harvard scholar Nicholas Christakis has noted that online social networks are &#8220;the same but different&#8221; compared to real-life ones. In a lot of ways, this is also the case with the exercise of justice and injustice on the social web. Censorship and cyberattacks represent two particularly prominent violations of human rights and freedom of speech. Increasingly, countries like China, Uzbekistan, Tunisia and Moldova are practicing extreme censorship of online activists and bloggers, and cyberattacks continue to be used as weapons of oppression. Earlier this year, 30 Egyptian political bloggers were detained for their anti-sectarian views and in 2009, the antigovernmental sentiments of a 34-year-old Georgian economics professor blogging under the alias CYXYMU led to a cyberattack that disrupted service for hundreds of millions of internet users on Twitter, Facebook and LiveJournal, as the attackers took down entire sites in an attempt to silence just this one voice.</p>
<p>In a recent talk in Zurich, Wired UK editor David Rowan referred to the activism of the social web with the example of Abdulkarim El-Khewani, a Yemeni journalist whose six-year-old daughter was roughed up after government officials raided his house in June 2007 to arrest him because of his investigative work on petroleum corruption. While his case received attention from local press and human rights activists, it wasn&#8217;t until the following year, when the Yemeni activist group Sisters Arabic Forum for Human Rights put up a YouTube video of his young daughter Eba recounting her father&#8217;s arrest, that the world took notice. Eventually, the case reached the U.S. State Department, which added to the pressure to free him. El-Khewani, who had been sentenced to six years in prison, received a presidential pardon. Upon his release, he told a reporter that he persevered because he felt he wasn&#8217;t alone; the world was on his side.</p>
<p>These new forms of violence are very real, posing threats to the personal security and, in many cases, lives of those who are deemed dissident. They transgress multiple pillars of the Universal Declaration for Human Rights — namely, Article 12 (&#8220;No one shall be subjected to arbitrary interference with his privacy, family, home or correspondence, nor to attacks upon his honour and reputation. Everyone has the right to the protection of the law against such interference or attacks.&#8221;), Article 19 (&#8220;Everyone has the right to freedom of opinion and expression; this right includes freedom to hold opinions without interference and to seek, receive and impart information and ideas through any media and regardless of frontiers.&#8221;) and, in the worst of political regimes, Article 28 (&#8220;Everyone is entitled to a social and international order in which the rights and freedoms set forth in this Declaration can be fully realised.&#8221;)</p>
<p>By Gladwell&#8217;s definition, these acts of violence, which pose real risks, should validate the work of what Google&#8217;s Public Policy Blog calls &#8220;digital refugees&#8221; — and the support of their social networks — as genuine, high-stakes activism.</p>
<p>Ultimately, Gladwell&#8217;s mistake is seeing online and offline social networks as disjointed mechanisms. Hierarchies do exist online, and while the top of the pyramid may often be represented by an offline eminence — say, a presidential candidate — the bottom of the pyramid, which supports the entire movement, is composed of online authorities with degrees of influence, such as the vocal supporters who amplify the candidate&#8217;s message across the social web, engaging new adherents along the way. Anyone doubting the viability of this model is invited to review Barack Obama&#8217;s presidential campaign, which was largely orchestrated via social media.</p>
<p>Hierarchies also exist within the social web and are particularly useful in promoting an understanding of causes. Someone with a large following on Twitter can draw attention to an issue, which then trickles down his or her social graph, reaching a wider and wider audience. And just to reiterate, while awareness is certainly not a sufficient condition for activism, it is a necessary one.</p>
<p>Gladwell argues that the reason four black students dared to plant themselves at a Greensboro lunch counter in the first place was that the protestors were close friends, providing one another with enough support and even peer pressure to withstand a potentially violent reception. The social web, he claims, fails to foster such strong relationships. Again, he presents a false cut-and-dried distinction between online and offline communities. While connections on Facebook and, more so, Twitter require minimal familiarity, it is increasingly common for online acquaintances to deepen into real, offline friendships. (When a commenter made this point in The New Yorker&#8217;s live Q&#038;A with Gladwell last week, the author promptly and derisively dismissed the suggestion. His exact words: “At last! A positive side effect of social media! I would guess it has improved the typing skills of many users as well.”)</p>
<p>Anecdotally, for what it&#8217;s worth, I&#8217;ve met online both my best friend in the world and the only person with whom I&#8217;ve ever maybe-possibly been in love. I didn’t seek out either of these connections through online dating sites and the like, but encountered them through the organic intersection of our paths as directed by the nature of our work — the same old-fashioned way people have always met strangers who go on to become something more. What originated as weak ties ended up industrial-strength connections. And based on countless conversations I&#8217;ve had with other friends (many of whom I&#8217;ve also met online and are now very much a part of my &#8220;real-life&#8221; social circle), I am not an exception.</p>
<p>What does this have to do with activism? It&#8217;s simple. Online communities broaden our scope of empathy. (The digital anthropologist Stefana Broadbent has done some interesting work in that vein.) They do so by introducing new issues to our collective consciousness and exposing us to the lives these issues affect. In cases where our &#8220;in-group&#8221; lacks direct experience of such concerns, empathy is the missing link between awareness and action — it&#8217;s what enables us to act for the well-being of others, as in the case of El-Khewani.</p>
<p>Maybe Wikipedia, as Gladwell argues, wouldn&#8217;t have helped Dr. Martin Luther King – the question is moot because it takes new ecosystems of authority and tries to retrofit them to old political structures – but sites like ScraperWiki do help the data democracy fighters of today and platforms like HelpMeInvestigate harness the social web to support those working toward one of the most critical issues in digital activism: political and institutional transparency.</p>
<p>Historic protests are being organized on Facebook. In 2008, in Colombia, a country where the largest public protest to date had been attended by 20,000 people, a Facebook campaign orchestrated by a young engineer incited an estimated 4.8 million people to participate in 365 protests against the Revolutionary Armed Forces known as FARC. In 2009, a similar Facebook effort in Bulgaria brought together the largest public protests since the fall of communism, which resulted in the resignation of several Parliament members accused — and later convicted — of corruption. In a recent speech on internet freedom, Secretary of State Hillary Clinton gave the example of a 13-year-old boy who used the social web to organize blood drives after the Mumbai terrorist attacks in 2008. And, most recently, Adam Penenberg used Twitter in a fine piece of investigative journalism to uncover the details of a $131-million death verdict against Ford that traditional media had failed to access.</p>
<p>Most human rights violations, from discrimination to genocide, can be attributed to one or both of two root causes: pluralistic ignorance (the tendency of a group’s members to incorrectly believe that the majority condones an injustice) and diffusion of responsibility (the conviction that someone else will take action against the injustices we are aware of). It takes a critical mass of awareness and assignment of responsibility for injustice to end. While the social web, with its inherent anonymity and predilection for slacktivism, may do little in the way of assigning responsibility, it has a monumental effect on awareness. Today, it is impossible to participate actively in the social web and be unaware of the existence of climate change or Aung San Suu Kyi. And while many will join a Facebook group as a badge of affiliation with a cause rather than take real action, a few will be driven by social-media-engendered empathy and indignation to start NGOs, invent humanitarian design solutions, or lobby in Congress.</p>
<p>Examples span the entire spectrum of activism – from access to knowledge (such as TED&#8217;s thriving online community of volunteer translators, who have made thousands of TED talks available in over 75 languages) to humanitarian fundraising (like Amanda Rose&#8217;s Twestival, the Twitter-powered global grassroots organization that raised more than $250,000 for Charity Water&#8217;s clean drinking water work in 2009 and more than $460,000 for Concern Worldwide&#8217;s education work in 2010) to humanitarian crisis management (such as Ushahidi&#8217;s crowdsourced maps of disaster information during the Haiti and Chile earthquakes that wiped out traditional information infrastructures).</p>
<p>In light of these examples and many more out there, I find Gladwell&#8217;s contention that &#8220;innovators tend to be solipsists&#8221; particularly disheartening. (Though I should be careful – Gladwell isn&#8217;t sparing with insults; he called a Huffington Post writer who challenged his declarations about social media a “narcissist.”) Perhaps, after all, his is a failure of recognizing not the sociology of activism but the psychology of altruism as a backbone of the social web&#8217;s capacity for good.</p>
<p>Ultimately, most injustice is about marginalization; an individual or group is denied resources available to the rest of society. In the civil rights era, the boundaries were often about access to public space as a designator of status and equality — back versus front of the bus, sit-down tables versus lunch counter. In the digital era, boundaries frequently pertain to one’s access to information. But just as our notion of public space has evolved to encompass digital space and the data it contains, our definition of activism should be modified to incorporate efforts to protect speech and provide access in this new public realm. To negate the power of the social web as a mechanism of this kind of activism is to deny the evolution of the social planes on which justice and injustice play out.</p>
<p>As the internet scholar Evgeny Morozov has famously said, &#8220;Technology doesn’t necessarily pry more information from closed regimes; rather, it allows more people access to information that is available.&#8221; But access is the first tile in a domino effect of awareness, empathy and action. The power of the social web lies in the sequence of its three capacities: To inform, to inspire and to incite.</p>
<p>Viva la #revolución. </p>
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